Entrevista realizada a Rui Horta Pereira a propósito da exposição “Água e um Pouco de Areia Fina”, no Museu Nacional de Arte Popular, enquadrada no ciclo de exposições “Projecto Travessa da Ermida no MAP”, organizada por Sérgio Parreira (outubro de 2014).

A análise fenomenológica constitui o ponto de partida da prática artística de Rui Horta Pereira. Em “Água e um Pouco de Areia Fina”, a contaminação do ambiente na Praia da Armona, no Algarve, foi o leitmotiv para a construção de uma escultura construída com centenas de cordas recolhidas naquela praia, numa espécie de purga criativa e ambiental. Nesta entrevista, o artista explica o caminho que o conduziu até à construção de um tapete com 200kg de corda de pescador e a sua formulação no contexto do projeto “Procedimento Escultura: Objetos para algumas imagens em movimento”.

por Catarina da Ponte

Na sinopse da presente exposição refere que a peça “Água e um pouco de areia Fina” constitui um segundo momento do projeto “Procedimento Escultura: Objetos para algumas imagens em movimento” que apresentou, no final de 2013, na Galeria Quadrum, em Lisboa. Pode explicar-nos sumariamente este projeto?

Na realidade, este foi um projeto que apresentei à Gulbenkian e que, em rigor, vinha no seguimento de um outro que realizei em 2012 constituído por uma série de 13 curtas-metragens bastante elementares nas suas premissas. Esse trabalho chamava-se “Plano de Dobra”. Nunca foi apresentado publicamente, apenas no meu site, e constituiu uma espécie de “passo ao lado” naquilo que é minha habitual estratégia de trabalho. No seguimento destes vídeos, construi um outro projeto – “Procedimento Escultura: Objetos para algumas imagens em movimento” – que consistia em trabalhar a partir de cada um dos locais e das ações dos vídeos, definindo uma estratégia criativa para criar instalações, esculturas ou desenhos. A grande maioria destas ações acontece na Barragem do Alqueva, mas também na Ilha da Armona.

E deste projeto resultou a primeira exposição que intitulou “Around” e que apresentou  na Galeria Quadrum, foi isso?

Sim, no caso dessa primeira exposição eram coisas muito próximas do desenho, apresentei um conjunto de papéis que foram queimados ao sol durante um determinado período de tempo. Esta exposição [no MAP] é, precisamente, a segunda parte do projeto e baseia-se num dos filmes que realizei na Armona, um local onde tenho ido com alguma regularidade nos últimos anos. Este projeto começa por ser uma brincadeira na qual faço uma limpeza de praia com a criançada toda mas rapidamente me apercebo que faz todo o sentido desenvolver um projeto artístico com os materiais recolhidos naquela limpeza. Não é um processo novo no meu trabalho, quase todas as esculturas que tenho construído e, algumas de grandes dimensões, recorrem muito a esta circunstância de local, no qual identifico determinado material, recolho-o e defino um projeto. Neste caso foram as cordas dos pescadores que deram o mote para o projeto.

 Em que medida as características do material que recolheu determinou o resultado final da peça?

Estamos a falar de um tapete, inicialmente pensei em fazer uma separação de todas as cordas e criar um critério cromático, mas a dada altura considerei que talvez não fizesse sentido. Uma das razões derivava diretamente do material, porque não tinha tantas cordas azuis, como tinha verdes, pretas ou laranjas. Portanto, nunca conseguiria fazer um módulo de 1/1 que fosse apenas preto ou de uma outra cor. Depois, porque há uma outra conjugação que é, para mim, mais interessante de explorar: as cordas têm uma patine do tempo, muitas delas estão sujas, têm areia, outras têm lapas e conchas, o que torna essa conjugação mais aleatória e mais incontrolável. Este fortuito jogo cromático vai muito mais ao encontro dos meus processos que sempre privilegiam a ação de um agente exterior. Esta situação já acontecia, por exemplo, na primeira parte do projeto – [“Procedimento Escultura: Objetos para algumas imagens em movimento”], quando era o sol a dar a patine do tempo. Na realidade, só vou ter a perceção da peça quando a montar, agora tenho uma noção parcial. Isto significa que vou poder conjugar algumas coisas, mas não vou poder conjuga-las todas, poderei fazer um ajuste à conjugação cromática, mas não sei se isso é assim tão importante para mim.

Recentemente afirmou: “A minha prática é suscitada por uma circunstância oficinal ou de ateliê, por observação de um fenómeno, ou por causa de algum tema sobre o qual não sei nada e gostaria de saber”. O que fez espoletar, em concreto, o seu interesse em realizar “Água e um pouco de areia Fina”?

Eu odeio ver a praia toda suja, fui-me envolvendo com o processo e apercebi-me que a situação não era assim tão simples. Em conversa com os pescadores percebi que o material que vai parar ao areal não tem tanto a ver com desleixe, mas sim com uma impossibilidade. Para ter uma ideia, o que acontece é que quando as cordas se prendem no fundo do mar prendem-se, muitas vezes, num determinado tipo de arbustos ou algas (aqui perdoem-me a minha imprecisão a referir o dito vegetal), que torna praticamente impossível arrancar as cordas do fundo do mar. Os pescadores veem-se obrigados a cortar as cordas. Portanto, existirão toneladas de cordas no fundo do mar, entre outras coisas. Confesso que fiquei muito mal impressionado quando fui lá no Inverno para fazer a recolha do material que precisava, mas nunca esperei encontrar tantas coisas. É inacreditável a quantidade de lixo existente na praia, são milhares de garrafas de plástico.

Fazes essas purgas criativas todos os Invernos e verões?

Sim, faço isto de há quatro anos a esta parte, porque costumo ir para a Praia da Armona passar férias.

Porquê apresentar esta obra no Museu de Arte Popular?

Talvez por uma relação básica, pelo seu caracter de manualidade.

A experimentação e a investigação são duas das características que melhor definem o seu processo criativo e a sua poética de artista. O que experimentou e quanto investigou para chegar a “Água e um pouco de areia Fina”?

Acho que neste trabalho experimentei mais do que investiguei. Para mim foi muito importante ir ao sítio e perceber o efetivo enquadramento da situação e fazer a recolha do material, do que fazer uma investigação. Para fazer esta peça estou a usar um bastidor normalíssimo, do mais simples que existe. Não há, por exemplo, uma investigação ao nível da técnica da tecelagem. Podia ser um caminho a seguir, mas interessa-me mais falar com os pescadores e descobrir por exemplo porque é que aquelas cordas foram ali parar, como é possível numa zona protegida como a Ria ter um tão grande volume de lixo. Portanto, é mais esta parte de investigação ambiental que me interessa. Se preferir, é uma investigação muito direta, no terreno.

 A sua prática artística é tentacular, cruzando vários territórios disciplinares, designadamente o desenho, a pintura, a escultura e a Instalação. Em que disciplina é que inseriria este “tapete”?

Acho que é uma escultura. Há sempre aquela situação curiosa que surge quando alguém que não me conhece pergunta o que é que faço e que material gosto mais de trabalhar… é sempre difícil de responder. Na minha prática artística vou utilizando os meios que considero adequados, consoante a situação que pretendo explorar. Muitas das vezes é a partir do material que tiro os maiores dividendos. Mas não tenho qualquer tipo de problema com a catalogação. Esta obra para mim é claramente uma escultura, apesar de ter o desenho como suporte.

Tem uma noção rigorosa de quanto é que vai pesar e medir a peça?

Tenho. Cada módulo tem sensivelmente 1X1m2, constituído por cerca de 170 alinhamentos de corda. Pelas contas que fiz, em média cada módulo terá 200m lineares de corda e pesará cerca de 7kg. Estimo que, no total, a peça talvez chegue aos 200kg. A única dúvida é se a peça terá 28 ou 32 módulos. Portanto estamos a falar de um tapete que terá 28m2 ou 32m2. O tapete será suspenso diagonalmente à entrada da sala para que possa ser visto dos dois lados. A ideia é ter uma linha suspensa e só quando o espetador se desloca à sua volta é que terá a perceção integral da peça.