O Golfo procura mais peixe do que consegue produzir. Portugal pode ocupar esse espaço.

Os países do Golfo têm vindo a marcar a sua posição como mercados emergentes com os níveis crescentes de consumo da sua população jovem, tal como a exigência da mesma quanto à qualidade dos produtos que consomem. Contudo, estes países, especialmente os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, atravessam agora uma transformação económica e gastronómica sem precedentes, impulsionada pelo turismo de luxo e pela procura de estilos de vida mais saudáveis.

Hoje, a principal questão já não é se existe procura nestes mercados. A questão é quem será capaz de a abastecer. É nesta última questão que Portugal e a excelência do mar português encontram a sua oportunidade de destaque.

Segundo a Mordor Intelligence, o mercado de pescado e aquicultura do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) deverá crescer de cerca de 3,42 mil milhões de dólares em 2025 para 4,68 mil milhões em 2030, registando uma taxa média anual de crescimento próxima dos 6,5%.Este crescimento resulta da convergência de vários fatores estruturais.

O primeiro é demográfico. A população continua a crescer e concentra-se cada vez mais em áreas urbanas. O segundo é económico. Países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos estão a diversificar as suas economias para além do petróleo, promovendo simultaneamente o turismo, a hotelaria e a restauração. Só na Arábia Saudita, os visitantes internacionais gastaram 49,4 mil milhões de riais sauditas no primeiro trimestre de 2025, o valor mais elevado alguma vez registado para este período, segundo o Ministério do Turismo saudita. Mais turistas significam maior procura por produtos alimentares de qualidade e, naturalmente, por pescado.Existe ainda um terceiro fator, frequentemente menos visível, mas talvez o mais importante: a segurança alimentar. Os governos do Golfo identificaram a produção alimentar como uma prioridade estratégica. Contudo, a escassez de recursos hídricos, as temperaturas elevadas e a pressão sobre os ecossistemas marinhos tornam impossível acompanhar o crescimento do consumo apenas através da produção local.

Embora a região esteja a investir na aquicultura, continua dependente das importações para satisfazer a procura interna.

Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE) e o Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), as exportações agroalimentares portuguesas ultrapassaram 8 mil milhões de euros em 2024, mantendo uma trajetória de crescimento sustentado. O setor do pescado assume um papel de destaque, suportado por uma indústria reconhecida internacionalmente pela qualidade, capacidade industrial, rastreabilidade e cumprimento das normas europeias.

Embora o bacalhau continue a ser um dos produtos mais emblemáticos da gastronomia portuguesa, o maior potencial comercial no Golfo poderá encontrar-se noutras categorias.

As conservas premium, o atum, a sardinha, o polvo, os bivalves e os produtos congelados respondem melhor às necessidades do mercado regional. Apresentam maior flexibilidade logística, longa conservação, facilidade de distribuição e enquadram-se perfeitamente no crescimento das grandes cadeias de retalho, do comércio eletrónico e do canal HORECA.

Paralelamente, observa-se uma procura crescente por produtos de maior valor acrescentado. O consumidor do Golfo está cada vez mais atento à origem dos alimentos, aos processos de produção, à sustentabilidade e à rastreabilidade. Produtos certificados, provenientes de pesca sustentável ou de produtores reconhecidos conseguem frequentemente posicionar-se em segmentos premium, sobretudo nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita.

Portugal dispõe de vantagens competitivas difíceis de replicar. Possui uma tradição marítima secular, uma indústria conserveira altamente desenvolvida, elevados padrões de qualidade, certificações reconhecidas internacionalmente e uma reputação consolidada nos mercados mais exigentes.

À medida que os países do Golfo procuram reforçar a sua segurança alimentar sem conseguirem acompanhar internamente o crescimento da procura, abre-se uma janela de oportunidade para fornecedores internacionais capazes de garantir qualidade, consistência e fiabilidade.