Cibersegurança e Tecnologia nos Países Árabes: Uma Oportunidade em Construção para Portugal

A transformação digital em curso nos países árabes é, antes de mais, uma história de ambição. Nas últimas décadas, os países do GCC e do Magrebe investiram de forma sistemática na digitalização dos seus serviços públicos, na modernização das infraestruturas e na criação de ecossistemas tecnológicos capazes de atrair capital e talento internacional. Este processo, acelerado por planos estratégicos como a Visão 2030 da Arábia Saudita ou a Digital Marrocos 2030, abriu um mercado de tecnologia e cibersegurança de dimensão relevante, com taxas de crescimento que poucos sectores conseguem atualmente igualar. Para as empresas portuguesas de software, este é um mercado que começa a revelar janelas concretas de entrada.

Os números são expressivos. O mercado de cibersegurança no Médio Oriente foi avaliado em 16,7 mil milhões de dólares em 2025 e deverá crescer a uma taxa anual composta de 9,3% até 2034, quando poderá ultrapassar os 37 mil milhões de dólares. No GCC especificamente, o mercado foi avaliado em 6 mil milhões de dólares em 2025 e deverá atingir 9,3 mil milhões de dólares em 2034. Estes indicadores sugerem uma procura estrutural em consolidação, impulsionada não apenas pelo crescimento das ameaças digitais, mas também pelo reforço das exigências regulatórias e pela crescente digitalização das economias da região.

A Arábia Saudita lidera este movimento com particular escala. O Reino reforçou o seu enquadramento regulatório com a entrada em vigor da Lei de Proteção de Dados Pessoais e com o aprofundamento da Estratégia Nacional de Cibersegurança, orientada para o reforço da confiança digital e da proteção de ativos estratégicos nacionais. Segundo a PwC Middle East, mais de 75% das empresas sauditas aumentaram os seus orçamentos de cibersegurança desde 2022. Os Emirados Árabes Unidos seguem um percurso semelhante: o governo federal alocou mais de 2 mil milhões de dólares em 2025 para centros de operações de segurança soberana e programas de desenvolvimento de competências, com o objetivo declarado de formar 40.000 especialistas em cibersegurança.

Ao mesmo tempo, a aceleração da digitalização regional cria uma superfície de exposição crescente. O sector das tecnologias de informação e comunicação da Arábia Saudita foi estimado em mais de 40,9 mil milhões de dólares em 2023, crescendo a uma taxa anual de 22,7%, enquanto o mercado de transformação digital no Médio Oriente deverá crescer de 59 mil milhões de dólares em 2025 para 146 mil milhões de dólares em 2031.

No Magrebe, a dinâmica é diferente, mas igualmente relevante. Marrocos consolidou-se nos últimos anos como um dos principais hubs tecnológicos da África do Norte, atraindo centros de dados, operadores de telecomunicações e empresas internacionais de tecnologia. O mercado marroquino de cibersegurança é avaliado em 1,2 mil milhões de dólares, com o sector cloud a criar oportunidades crescentes para soluções de segurança e os serviços geridos de segurança a registarem projeções de crescimento particularmente relevantes.

O principal constrangimento identificado continua a ser a escassez de talento especializado: Marrocos conta atualmente com cerca de 6.000 profissionais certificados em cibersegurança, quando a procura nacional excede os 12.000. Esta lacuna representa, paradoxalmente, uma abertura para fornecedores externos com capacidade de complementar recursos locais e desenvolver parcerias técnicas de longo prazo.

A Argélia apresenta igualmente sinais de aceleração. No final de 2025, o Presidente Tebboune aprovou a Estratégia Nacional de Cibersegurança 2025-2029, a qual prevê a criação de unidades de cibersegurança dedicadas à monitorização, proteção e resposta a incidentes digitais nas instituições públicas, numa das mais ambiciosas reformas digitais da história recente do país.

Para as empresas portuguesas de software e tecnologia, este contexto abre possibilidades concretas, mas exige uma leitura estratégica clara. Portugal apresenta credenciais sólidas neste domínio: o país foi classificado em 4.º lugar no Índice Global de Cibersegurança das Nações Unidas em 2024, ao lado de Singapura e dos Estados Unidos, na categoria mais elevada.

O ecossistema tecnológico nacional conta com empresas especializadas em segurança soberana, inteligência de ameaças, gestão de identidade e acesso, testes de penetração e serviços geridos de segurança, áreas que registam atualmente uma procura crescente nos mercados árabes. O sector tecnológico português emprega cerca de 98.000 pessoas e regista uma taxa de crescimento anual das exportações de serviços de TI de 23,4%.

A questão que se coloca não é, portanto, de capacidade, mas de abordagem. Os mercados do Golfo privilegiam empresas com presença local, referências no sector público, alinhamento com os requisitos regulatórios de cada país e capacidade de construir parcerias com atores regionais. O modelo de entrada através de representação local ou de consórcios com distribuidores regionais tende, em muitos casos, a revelar-se mais eficaz do que a tentativa de exportação direta.

No Magrebe, em particular em Marrocos, com o qual Portugal mantém relações históricas e uma proximidade cultural que facilita o diálogo comercial, o potencial para acordos de prestação de serviços de segurança gerida, formação técnica e implementação de plataformas começa a revelar oportunidades concretas de curto e médio prazo.

A inteligência artificial está igualmente a redefinir rapidamente o perímetro da cibersegurança em toda a região. A diferenciação tecnológica centra-se cada vez mais em arquiteturas de inteligência artificial, machine learning e zero-trust, com oportunidades identificadas nos sectores da saúde, PMEs e segurança de cadeias de abastecimento, onde as soluções fragmentadas continuam a ser frequentes.

Para empresas portuguesas com capacidades nestas áreas, a combinação entre reputação europeia, competitividade de preços e flexibilidade operacional pode constituir um fator de diferenciação relevante face aos grandes fornecedores internacionais que dominam os contratos de maior escala.

Os indicadores de crescimento são consistentes, as necessidades de modernização continuam a expandir-se e várias lacunas de oferta permanecem identificáveis em segmentos específicos do mercado. O principal desafio passa, em muitos casos, por qualificar estrategicamente estes territórios como destinos prioritários de internacionalização e construir as parcerias locais necessárias para sustentar uma presença de longo prazo.